Repetição espaçada: como funciona e como usar flashcards para concursos | olhonavaga
Método de estudo

Repetição espaçada: como funciona e como usar flashcards para concursos

Equipe olhonavaga 14 min de leitura

Resposta rápida

Quem estuda uma vez esquece rápido: nos experimentos de Ebbinghaus, a maior parte da perda acontece nas primeiras horas e dias. A repetição espaçada combate isso revendo o conteúdo em intervalos que crescem a cada acerto, por exemplo no dia seguinte, 3 dias depois, uma semana depois, sempre tentando lembrar antes de olhar a resposta. Com flashcards bem escritos e alguns minutos por dia, é um dos métodos mais eficientes para memorizar legislação, súmulas e conceitos de concursos.

A cena que todo concurseiro conhece

Exemplo ilustrativo

Marina estuda para técnico administrativo. No sábado, passa a manhã lendo o capítulo sobre licitações e fecha o PDF com a sensação de que entendeu tudo. No domingo, ainda lembra bastante. Na semana seguinte, ao resolver questões do assunto, percebe que boa parte dos detalhes sumiu: modalidades, prazos, exceções. Dois meses depois, na prova, cai uma questão que cobra exatamente um desses detalhes.

Marina não estudou pouco. Ela estudou uma vez.

Isso não é falta de inteligência nem de disciplina. É o funcionamento normal da memória, e ele foi medido há mais de 130 anos. Entender como o esquecimento acontece é o primeiro passo para estudar de um jeito que dura até o dia da prova.

A curva do esquecimento

O psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus decidiu medir o esquecimento em si. Usando a si mesmo como voluntário, ele decorava listas de sílabas sem sentido, algo como "DAX" ou "BOK", para que nenhum conhecimento prévio ajudasse. Depois de um intervalo, media quanto esforço precisava para reaprender a mesma lista. Quanto menos esforço, mais da lista tinha ficado na memória.

0% 25% 50% 75% 100% 58% 20 min 44% 1 h 36% 9 h 34% 1 dia 28% 2 dias 25% 6 dias 21% 31 dias Esforço economizado ao reaprender Tempo desde o estudo (escala logarítmica)
Economia de esforço ao reaprender uma lista de sílabas, segundo os dados de Ebbinghaus (1885). Escala de tempo logarítmica: cada marca é um intervalo diferente, e os primeiros minutos e horas ocupam bastante espaço.

Leia o gráfico assim: vinte minutos depois de aprender, reaprender a lista custava 58% menos esforço do que aprendê-la do zero. Um dia depois, 34% menos. Um mês depois, 21% menos. A queda é brutal no começo e vai suavizando: a maior parte da perda acontece nas primeiras horas e dias.

Três cuidados ao interpretar essa curva:

  • O que Ebbinghaus mediu foi a economia de esforço ao reaprender, e não o percentual que a pessoa lembrava. É um indicador de memória, mas não é o mesmo que "lembrei 58%".
  • Sílabas sem sentido são mais difíceis de reter do que conteúdo que você entende. Para uma matéria que faz sentido para você, a queda tende a ser menos dramática, mas o formato (rápida no começo, lenta depois) se mantém.
  • O desenho exato varia com a pessoa, o material e o quanto foi aprendido. Em 2015, Jaap Murre e Joeri Dros repetiram o experimento e encontraram um padrão parecido, com a mesma queda acentuada no começo.

Para quem estuda para concursos, a mensagem é direta: o que você leu hoje não está "guardado". Está em processo de esquecimento, a menos que alguma coisa o interrompa.

Como a repetição espaçada vence a curva

O que muda a curva é a revisão. Cada vez que você recupera uma informação da memória, ela volta a ficar forte, e a queda seguinte é mais lenta. É daí que vem a repetição espaçada: rever o conteúdo em intervalos que crescem, sempre perto do momento em que você começaria a esquecer.

0% 50% 100% 1ª 2ª 3ª 4ª 0 5 10 15 20 25 30 35 Dias desde o primeiro estudo Sem revisão Com revisões
Ilustração esquemática, sem dados de um experimento: sem revisão (tracejado), a lembrança some em poucos dias. Com revisões nos dias 1, 4, 10 e 22 (marcadas de 1ª a 4ª), cada queda fica mais lenta que a anterior.

Duas observações sobre o que a pesquisa diz:

  • Espaçar vence amontoar. Uma análise de Cepeda e colegas (2006), reunindo mais de 300 experimentos, mostrou que distribuir as revisões no tempo produz melhor retenção de longo prazo do que concentrá-las. É um dos achados mais replicados da psicologia da aprendizagem.
  • O melhor intervalo depende de quanto tempo você precisa lembrar. Em um experimento com mais de mil voluntários (Cepeda e colegas, 2008), quando o teste era uma semana depois, o melhor intervalo entre duas sessões de estudo ficou entre 20% e 40% desse prazo, ou seja, de um a três dias. Quando o teste era um ano depois, o melhor intervalo ficou entre 5% e 10% do prazo, ou seja, algumas semanas.

Na prática, isso orienta o concurseiro: quanto mais longe está a prova, maiores podem ser os intervalos; quanto mais perto, mais frequentes devem ser as revisões. Em 2013, Dunlosky e colegas revisaram dez técnicas de estudo muito usadas por estudantes e deram nota alta de utilidade a duas delas: a prática distribuída e a prática de testes. Releitura e marca-texto ficaram com nota baixa. As duas técnicas bem avaliadas são exatamente as duas ideias por trás dos flashcards com repetição espaçada.

Por que tentar lembrar vale mais do que reler

Reler dá a sensação de que você está aprendendo: o texto parece familiar, e familiaridade é facilmente confundida com saber. Tentar lembrar é diferente. Exige buscar a resposta na memória, e é esse esforço que a fortalece.

Em um experimento clássico (Roediger e Karpicke, 2006), estudantes estudaram textos de dois jeitos: um grupo releu o material várias vezes, o outro estudou e depois se testou. Cinco minutos depois, quem releu foi melhor. Uma semana depois, o resultado se inverteu: quem tinha se testado lembrava substancialmente mais. E os estudantes que releram se sentiam mais confiantes, mesmo lembrando menos.

Reler ou recuperar?

Ler cinco vezes a frase "o mandado de segurança deve ser impetrado em até 120 dias" cria a sensação de domínio. Responder, sem olhar, à pergunta "qual o prazo para impetrar o mandado de segurança?" é o que cria a memória. No flashcard, a pergunta na frente força a tentativa, e a resposta no verso serve de correção.

Por isso, a regra de ouro dos flashcards é tentar responder antes de virar o cartão, mesmo que seja só mentalmente.

Na prática: a agenda de revisões de um cartão

Veja como seria a vida de um cartão que você acerta sempre, em um esquema em que o intervalo dobra a cada acerto:

QuandoO que acontecePróxima revisão
Dia 0Você estuda o tema e cria o cartãoNo dia seguinte
Dia 11ª revisão: você acerta3 dias depois
Dia 42ª revisão: você acerta6 dias depois
Dia 103ª revisão: você acerta12 dias depois
Dia 224ª revisão: você acerta24 dias depois
Dia 465ª revisão: você acertaCada vez mais espaçada

Em 46 dias, foram cinco revisões de alguns segundos cada. Se em qualquer uma delas você errar, o cartão volta a um intervalo curto, e o ciclo recomeça a partir dali. É assim que o método concentra o seu tempo no que você ainda não domina, em vez de rever tudo sempre.

Os intervalos exatos variam de um sistema para outro. No sistema de caixas criado por Sebastian Leitner nos anos 1970, o cartão sobe de caixa a cada acerto e volta à primeira quando você erra. Já o algoritmo SM-2, do pesquisador polonês Piotr Wozniak, de fim dos anos 1980, calcula o próximo intervalo com base em quão fácil o cartão foi para você, e inspirou muitos programas de flashcards.

Nos flashcards do olhonavaga, esse agendamento é automático: os cartões ficam em filas, como novos, aprendendo e intermediários, e a cada dia você vê o que está pendente.

Como escrever bons flashcards

A repetição espaçada só funciona se o cartão for bom. Um cartão ruim é revisado muitas vezes e rende pouco. Compare:

Fraco

Frente: Mandado de segurança

Verso: Ação constitucional para proteger direito líquido e certo, com prazo de 120 dias, contra ato de autoridade, com regras de legitimidade, competência, cabimento...

Melhor: dois cartões

Frente: Qual o prazo para impetrar mandado de segurança, contado da ciência do ato? (Lei 12.016/2009, art. 23)

Verso: 120 dias.

Frente: Que tipo de direito o mandado de segurança protege?

Verso: Direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus nem habeas data.

Fraco

Frente: Súmula Vinculante 13

Verso: Nepotismo.

Melhor

Frente: Súmula Vinculante 13: até que grau de parentesco a nomeação para cargo de direção, chefia ou assessoramento configura nepotismo?

Verso: Até o terceiro grau, inclusive, em linha reta, colateral ou por afinidade, em relação à autoridade nomeante ou a servidor da mesma pessoa jurídica.

Os exemplos servem para mostrar o formato do cartão. Confira sempre a redação atual da lei ou da súmula antes de estudar.

O que os cartões bons têm em comum:

  • Uma ideia por cartão. Cartões longos, com vários itens, são difíceis de revisar e fáceis de acertar pela metade.
  • Uma pergunta que só tem uma resposta. Se você pode responder de dois jeitos certos, o cartão confunde a revisão.
  • Resposta curta. Se ela passa de uma ou duas linhas, divida o cartão.
  • Contexto. Indique a disciplina, a norma ou o artigo, para o cartão fazer sentido meses depois.
  • Lacunas quando a lista é importante. Em vez de decorar os princípios do art. 37 da Constituição em um cartão só, use "legalidade, impessoalidade, ____, publicidade e eficiência" e peça para completar a que falta.
  • O motivo, não só o fato, quando a regra tem uma lógica que ajuda a lembrar.
  • Escrito por você. Reformular com as suas palavras já é estudo.

O que transformar em cartão em concursos

Tipo de conteúdoExemplo de cartão
Prazos e números da leiQual o prazo para impetrar mandado de segurança?
Conceitos e definiçõesO que caracteriza determinado instituto jurídico ou conceito técnico?
Súmulas e tesesQual o enunciado da súmula e quando ela se aplica?
Exceções e "pegadinhas"Em qual hipótese a regra geral não se aplica?
Fórmulas e regras de portuguêsQuando se usa o acento grave indicativo de crase?
Erros das suas questõesA pergunta que você errou, com a resposta correta e o porquê

Os erros em questões são uma das melhores fontes de cartões: cada erro mostra exatamente o que você ainda não sabe, e é o conteúdo que a banca já cobrou. Veja como estudar por questões.

Quantos cartões novos por dia

Esta é a pergunta que decide se o método vai ser sustentável. Cada cartão novo gera revisões nos dias seguintes, e elas se acumulam. Faça a conta com a agenda acima:

Exemplo de cálculo

Se você cria 20 cartões novos por dia e todos seguem a agenda do dia 1, 4, 10 e 22, depois de cerca de três semanas o seu dia típico tem uns 80 cartões para revisar, além dos 20 novos. Supondo uns 10 segundos por cartão, são perto de 17 minutos por dia.

Se você criar 40 novos por dia, o número dobra: perto de 200 cartões por dia, o que passa de meia hora só de revisão.

Algumas regras para não perder o controle:

  1. Comece pequeno. Dez a vinte cartões novos por dia é um ponto de partida razoável, e você ajusta depois.
  2. Revise todos os dias. A vantagem do método aparece com constância. Poucos minutos por dia valem mais do que uma maratona semanal.
  3. Se a fila crescer, reduza os cartões novos, e não as revisões. Rever o que está pendente vem antes de criar coisa nova.
  4. Responda com honestidade. Dizer que lembrou quando só reconheceu a resposta desorganiza os intervalos.
  5. Combine com o resto do estudo. Os cartões fixam o que você já aprendeu, mas não substituem a teoria nem as questões. Veja como montar um plano de estudos.

Como fazer no olhonavaga

No olhonavaga

Os Flashcards Inteligentes escolhem o que revisar e quando: a inteligência artificial calcula o dia certo de cada cartão, e você só aparece para estudar. Clique em Começar Estudo e receba os cartões que o seu cérebro está prestes a esquecer.

Conhecer os flashcards
  1. Monte ou escolha um baralho. Crie os seus próprios baralhos ou estude os públicos, feitos de forma colaborativa, no estilo Wikipédia dos estudos. Um baralho por disciplina ou por tema do edital ajuda a manter tudo organizado.
  2. Escreva os cartões. Frente e verso, com a pergunta de um lado e a resposta do outro. Dá para usar imagens e estilos, o que ajuda em conteúdos visuais, como esquemas e fórmulas.
  3. Estude só o que está pendente. Os baralhos aparecem organizados por urgência, e você começa pelo que mais precisa de você. Estude tudo junto ou uma matéria de cada vez, como preferir.
  4. Acompanhe. Gráficos e estatísticas mostram o que evoluiu e o que ainda precisa de atenção, e as notificações avisam dos cartões pendentes, para nada passar batido.

Os flashcards funcionam melhor dentro de uma rotina completa. Os erros que você comete no banco de questões são a melhor matéria-prima para cartões. O plano de estudos reserva o tempo da revisão na sua semana. E, depois da prova, o ranking pós-prova mostra em quais matérias você ficou abaixo, para você saber onde criar mais cartões.

Erros que atrapalham

  • Ler a resposta antes de tentar lembrar. Vira releitura, e você perde o benefício da recuperação.
  • Cartões longos, com vários itens misturados. Você acerta metade e acha que acertou tudo.
  • Entrar com dezenas de cartões novos por dia e abandonar as revisões na semana seguinte, quando a fila aparece.
  • Passar uma semana sem revisar e tentar zerar a fila de uma vez. Volte reduzindo os novos até a fila caber no seu dia.
  • Copiar cartões prontos sem ler e sem adaptar ao que a sua banca cobra.
  • Usar flashcards para tudo. Para matérias de raciocínio, como matemática, o cartão ajuda com fórmulas e conceitos, mas o treino está nas questões.

Perguntas frequentes

Quanto tempo por dia devo dedicar às revisões?

Depende do número de cartões. Como vimos, 20 cartões novos por dia levam a perto de 17 minutos diários depois de algumas semanas. Se o tempo estiver apertado, reduza os cartões novos até a revisão caber na sua rotina.

Com quanto tempo de antecedência devo começar?

O quanto antes, porque os intervalos maiores precisam de tempo para acontecer. Mas mesmo a poucas semanas da prova a revisão frequente ajuda: quanto mais perto da prova, mais curtos devem ser os intervalos.

Vale usar cartões prontos de outras pessoas?

Podem ajudar a começar, mas cartões que você mesmo escreve ou adapta costumam funcionar melhor, porque formular a pergunta já é uma forma de estudo.

Flashcards servem para todas as matérias?

Funcionam melhor para conteúdo que exige memorização: prazos, conceitos, definições, súmulas. Para matérias de raciocínio, o ideal é combinar com a resolução de questões.

A repetição espaçada funciona para quem tem pouco tempo?

Sim: ela é eficiente justamente por concentrar a revisão no que está para ser esquecido, em vez de rever tudo sempre.

E se eu errar um cartão muitas vezes?

Provavelmente o cartão está mal escrito: longo demais, com mais de uma ideia ou sem contexto. Reescreva em cartões menores. Se o erro persiste, volte à teoria daquele ponto, porque o problema pode ser de compreensão, e não de memória.

Referências

  • Ebbinghaus, H. (1885). Über das Gedächtnis (Sobre a memória).
  • Murre, J. M. J.; Dros, J. (2015). Replication and analysis of Ebbinghaus' forgetting curve. PLOS ONE, 10(7), e0120644.
  • Cepeda, N. J.; Pashler, H.; Vul, E.; Wixted, J. T.; Rohrer, D. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks: a review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 354-380.
  • Cepeda, N. J.; Vul, E.; Rohrer, D.; Wixted, J. T.; Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: a temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095-1102.
  • Roediger, H. L.; Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249-255.
  • Dunlosky, J.; Rawson, K. A.; Marsh, E. J.; Nathan, M. J.; Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4-58.
  • Leitner, S. (1972). So lernt man lernen.
  • Wozniak, P. A. Algoritmo SM-2, do software SuperMemo (fim dos anos 1980).

As regras de cada concurso, como prazos, critérios de desempate, forma de correção e de recurso, estão no edital e podem mudar de uma banca para outra. Confira sempre o edital do concurso que você está prestando.

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